ESCUNA MS YAMANDU - voltar a lista
 

ESCUNA OU SAVEIRO - O que é o que?

 

Uma dúvida que ocorre freqüentemente, não apenas entre aqueles não iniciados no mundo náutico, mas também entre muitos marinheiros "velhos lobos do mar é: afinal, qual a diferença entre escuna e saveiro?

 

É muito comum encontrarmos em sites de blogueiros, descrevendo suas viagens de férias, a seguinte menção quanto ao tipo de embarcação empregada: “... chegando lá, embarcamos em uma escuna ou saveiro, sei lá! (mesmo porque não faço a menor idéia da diferença entre eles)...”

 

Vou então tentar aqui, sem pretensão alguma, facilitar a compreensão das diferenças entre estes dois maravilhos barcos construídos em madeira (Saveiros sempre! Entre as escunas, algumas vezes, poderemos encontrar outro tipo de material empregado na construção de seus cascos como o aço navsl. Mas na minha opinião – um tanto ortodoxa e purista neste assunto - tanto saveiros como escunas devem sempre possuir seus cascos em madeira, como mandam as mais remotas tradições navais.   

Estes dois tipos de embarcação distinguem-se principalmente não só pelo formato do casco e quantidade e posição dos mastros, como pela origem histórica.

A ESCUNA é um tipo de embarcação que movida a velas e caracterizada, mais comumente, pelo uso de duas velas (uma a vante e outra a ré) em dois mastros sendo o mastro de vante mais baixo ou no máximo na mesma altura do mastro de ré.

 

 

A maioria das escunas tradicionalmente são armadas em carangueja com dois mastros, podendo, às vezes, portar uma vela quadrada ou triangular fixada acima da carangueja do mastro grande ou dos dois mastros - topsail schoner. Também apresentam um mastro que se projeta para vante da proa - quase na horizontal, denominado Gurupés.

 

Mastreação (aparelho vélico) em carangueja é um tipo de configuração de velas onde a vela tem o formato quadrangular, de quatro pontas, podendo ser manipulada pelo seu topo através de uma “longarina”, denominada carangueja.

A carangueja pode ser fixa no alto do mastro – neste caso apenas a vela é movimentada para cima ou bara baixo – ou móvel, quando então todo o conjunto carangueja-vela é manipulada de uma só vez.

 

Na mastreação em caranguejas as velas estão alinhadas com a quilha o que permite que as velas do mastro de vante (traquete) e do mastro mais à ré (grande) sejam quadrangulares e não triangulares, o que proporcionalmente, duplica a área vélica empregada. Além disto, tal mastreação permite que as escunas velejem mais próximas da linha de vento, motivo pelo qual, necessitam de uma tripulação bastante reduzida para seu manejo.

 

As escunas também podem apresentar 3 ou mais mastros, configuração esta mais rara nos dias de hoje. 

 

As escunas foram inicialmente utilizadas, nos séculos 16 e 17 pelos holandeses e aprimoradas na América do Norte no início do século 18.

 

As escunas inicialmente foram utilizadas para o transporte de carga, transportando uma imensa variedade de cargas desde carvão, madeira, escravos, até frutas. Foram empregadas em viagens costeiras, oceânicas e principalmente nos Grandes Lagos (EUA). No final de 1800, havia mais de duas mil escunas nesta região.

 

Ao longo dos anos as escunas foram usadas não apenas como embarcações de carga, como empregadas para pesca e recreio. Na atualidade, pelas razões lógicas, este tipo de embarcação não é mais empregada para o transporte de cargas, mas apenas para recreio ou instrução naval (as maiores).

 

Entre os séculos 16 e 18 - a idade de ouro da pirataria - a escuna era uma embarcação bastante cobiçada e utilizada pelos piratas, pois poderia carregar a bordo até oito ou mesmo mais canhões. Além do que, apesar de deslocar (= peso bruto) aproximadamente 100 toneladas, era uma embarcação relativamente rápida e necessitava de uma tripulação bastante reduzida para seu manejo, permitindo assim que a maioria dos homens embarcados se dedicassem aos saques. Era comum uma tripulação efetiva de aproximadamente 75 a 80 homens.

 

De acordo com a Enciclopédia Britânica de 1911, a primeira embarção denominada ‘escuna’ foi construída pela companhia Andrew Robinson e lançada ao mar em 1713 em Gloucester, Massachusetts (USA).

 

Reza a lenda que o nome escuna foi o resultado da exclamação de um espectador no momento de seu lançamento ao mar:

 

- Oh, como ela scoons! Scoon é uma vocábulo escocês significando também, deslizar suavemente sobre a água.

 

-  Então que ela seja uma “shooner!” teria respondido Robinson.

 

De acordo com Walter William Skeat (1835-1912), filólogo Inglês, o termo “schooner”  tem sua origem em Scoon, enquanto a ortografia sch vem da nova grafia adotada posteriormente pelas línguas holandesa e alemã ("Schoner").

 


 O SAVEIRO, por sua vez è uma embarcação robusta de fundo chato, de forma semelhante à meia-lua, com a proa (vante) mais elevada que a popa (ré) e usada especialmente para conduzir as redes que se lançam em frente à praia. São empregadas para desembarque ou transbordo de carga nos portos. Podem ser cobertas ou abertas.

 

Como dito acima, é uma embarcação construída exclusivamente em madeira. Nas originais e mais antigas até os pregos eram feitos de madeira. (daí o motivo dos mestres carpinteiros-navais mais tradicionais se referirem, até hoje, aos pregos de aço como "cavilhas").

 

Possuem aerodinâmica e hidrodinâmica navais esmeradas, procurando o máximo que a madeira pode proporcionar.

 

                                                                

 

Saveiro também é um termo genérico que engloba várias modalidades de  embarcações bastante diferentes entre entre si, normalmente de construção primitiva. Dispensa complicados cálculos matemáticos para se chegar nas curvaturas das cavernas (costelas do esqueleto do casco). Claro que nunca são repetitivas, o que faz dos saveiros objetos de arte artesanal únicos. Todos são embarcações muito marinheiras.

 

Como diz Mestre Emídio, mestre carpinteiro-naval e maestro da construção da MS Yamandu - "um bom barco marinheiro tem que ser assim mesmo: construído todo torto para navegar direito”.

 

Ao contrário da escuna, o saveiro é brasileiro.

 

É uma adaptação do saveleiro, uma embarcação que os portugueses utilizam desde o século XV para a pesca do savel - espécie de bacalhau encontrado no Mar do Norte. O saveleiro foi escolhido pelos pescadores daquelas águas agitadas por suas excepcionais qualidades de segurança e facilidade de manobra, aliadas à boa capacidade de carga.

 

Trazido para Bahia no início do século XIX, o saveleiro passou a ser contruído em diversos estaleiros da região, para ser utilizado na pesca e no transporte de cargas ou passageiros. Os baianos logo trataram de motorizá-lo e de encurtar seu nome para saveiro.

 

É com muita tristeza que vejo nos dias de hoje, tanto as escunas como os saveiros, estarem virando raridade, retirando de nossas águas parcela importante de rara beleza e elegância, impedindo-nos de deixar nossas nossas mentes vagarem livremente até os nostálgicos e românticos tempos da navegação à vela. 

 

Os  saveiros com pior sorte. Não raro avistarmos nas costas do litoral baiano, e mesmo do resto do Brasil em escala menor, saveiros semi-submersos, apodrecendo sob a ação implacável do tempo e das águas. Aqui valem nossos aplausos à ONG Viva Saveiro, em sua batalha incansável na tentativa de recuperação (e estão conseguindo!) de algumas destas preciosas embarcações que tão bem retratam parte de nossa história marítima e naval.

 

Porém, evolução não incompreensível. Além de perderem espaço para os barcos a motor, mais velozes e eficientes,  deixaram de ser construídos por necessitarem de muita madeira na sua construção.

 

fonte de consulta: Wikimedia, Internet e ONG Viva Saveiro - Foto Saveiro: ONG Viva Saveiro